Pais galinha!

Querer proteger os filhos é normal. Protegê-los de facto também. A difícil questão que se coloca a todos os pais é saber até onde devem ir e a partir de que ponto a protecção se torna exagerada e, possivelmente, prejudicial. Conheça cinco sinais de quem já ultrapassou esse ponto.

As crianças não precisam de conhecer todas as suas angústias ou ficar a par dos seus mais pequenos problemas. E vice-versa.
 
“Faço questão de saber ao detalhe como foi o dia deles”, conta Catarina Machado, 37 anos. “Quando vamos da escola para casa já sabem que têm de me contar tudo. O mais novo [6 anos] às vezes diz: ‘Ó mamã, deixa estar, está tudo bem...’ O mais velho [9 anos] também tenta despachar-me, mas eu não desisto. Nisso sou muito incisiva.”

“As crianças gostam de saber que os pais se preocupam com elas e querem saber o que se passa quando não estão juntos. Isso é bom, no sentido de abrir a comunicação em família”, afirma a psicóloga clínica Maria João Pimentel. Mas, a não ser que haja algum sinal de alarme, “elas devem ter espaço para si próprias, guardar coisas que não querem partilhar.”

“Às vezes penso que lhes devia dar mais liberdade”, confessa Catarina Machado: “O mais velho até me cobra: ‘Ó mãe, porque é que és tão chata com essas coisas?’”

Com 9 anos, Tomás já lhe pede para o deixar fazer coisas sozinho, como ir a casa do vizinho, duas moradias abaixo, na mesma rua de uma pacata localidade rural. “Ele bem me diz: ‘Não vás espreitar!’ Mas eu não resisto e vou sempre à janela.”

“A educação para a autonomia é essencial. Exige que se aprenda a lidar com problemas, dúvidas, incertezas. Dá oportunidade para maior maturidade, uma superação de si mesmo, uma evolução pessoal”, explica Maria Dulce Gonçalves, psicóloga clínica.

“Quando me perguntam se se deve ajudar a fazer os trabalhos de casa, respondo que se deve ajudar no ponto em que a criança precisar, mas não mais do que isso”, explica Maria Dulce Gonçalves, investigadora na área da aprendizagem.

“Fiz um erro com o mais velho: se achava que ele ia fazer uma coisa mal, não lhe dava hipóteses sequer de o fazer”, assume Isabel Maurício, 38 anos. “Por exemplo, como achava que ele pintava mal, não lhe dava livros para pintar.”

Já com Bárbara Gonçalves, 36 anos, a aflição, também com o mais velho, foram os primeiros passos: “Estava sempre atrás dele, a ampará-lo. Cheguei a comprar-lhe um capacete. Depois, quando ele caía batia sempre com a cabeça porque eu não o deixava aprender a cair.”

“Facilitar a vida, satisfazer os desejos, evitar sofrimentos ou mesmo qualquer tipo de esforço, tudo é visto como sinónimo de amar. Mas esta ideia de felicidade infantil não traz nada de bom e só se traduz em sobreprotecção”, comenta Maria Dulce Gonçalves. “É importante que as crianças errem para aprenderem a gerir o erro, a frustração e a contrariedade”, acrescenta Maria João Pimentel.

Poder falar com os pais sobre tudo é muito bom, mas “a diferença de gerações é muito importante para que possam ser impostos limites e normas no funcionamento da vida familiar. Isso permite a identificação do lugar de cada um na família e é um grande organizador da vida emocional da criança”, explica a psicóloga Maria João Pimentel.

Ou seja, o mal não está tanto em dizer-se às crianças que se é o melhor amigo delas, mas em agir como tal: “Os pais não têm de ser os melhores amigos dos filhos, senão não conseguem estabelecer e fazer cumprir regras.”

Entre a escola, o apoio ao estudo, as actividades extracurriculares e os trabalhos de casa, os seus filhos podem muito bem estar ocupados de manhã à noite e ainda uma boa parte do fim-de-semana.

“No outro dia, o meu filho mais novo [5 anos] disse-me: ‘Não tenho tempo para brincar.’” De facto, admite Catarina Machado, o quarto de brinquedos está lá, mas praticamente só é usado aos domingos. A brincadeira livre, mostram várias investigações, contribui para a autonomia, a segurança e a estabilidade emocional das crianças, e para a sua felicidade.
 
“Elas têm de ter tempo não só para brincar”, como sublinha Maria João Pimentel, “mas também para escolherem o que querem fazer, para se organizarem, para pensarem.”

 

Artigo retirado de: http://www.sabado.pt//Multimedia/FOTOS/-span--b-Sociedade-b---span--(1)/Fotogaleria-(276).aspx?id=432430

publicado por paisaflitos às 10:20 | comentar | favorito